Capacidade de carga¶
O SPX calcula a capacidade de carga por três métodos semiempíricos brasileiros, em paralelo, para cada cota possível de ponta. O resultado é uma tabela por profundidade, e não um número único.
Todos partem da mesma decomposição:
Daí em diante eles divergem, e não apenas nos coeficientes. A diferença mais importante — e a que mais confunde quem compara resultados — está na forma da parcela lateral:
| Método | Resistência lateral | O que \(N\) representa |
|---|---|---|
| Aoki-Velloso | \(R_L = U \sum (r_L \, \Delta L)\) — soma camada a camada | \(N_L\) da camada de espessura \(\Delta L\) |
| Décourt-Quaresma | \(R_L = r_L \, U \, L\) — um valor único no fuste inteiro | \(N_L\) médio ao longo do fuste |
| Teixeira | \(R_L = \beta \, N_L \, U \, L\) — idem | \(N_L\) médio ao longo do fuste |
Só Aoki-Velloso integra o atrito camada a camada. Nos outros dois, o fuste recebe uma tensão única, calculada a partir da média do \(N_{SPT}\) — e aplicá-los na forma somatória de Aoki dá resultado diferente do método.
Aoki-Velloso (1975)¶
Origem¶
O método nasceu de correlações com o ensaio CPT, pela resistência de ponta do cone (\(q_c\)) e pelo atrito lateral na luva (\(f_s\)):
Como no Brasil o CPT é pouco empregado, \(q_c\) foi substituído por uma correlação com o SPT, \(q_c = K \, N_{SPT}\), e o atrito pela razão de atrito \(\alpha = f_s / q_c\).
Formulação¶
| Símbolo | Significado |
|---|---|
| \(K\) | Coeficiente do solo, em MPa — tabela |
| \(\alpha\) | Razão de atrito do solo, em % — idem |
| \(F_1, F_2\) | Fatores de correção por tipo de estaca — tabela |
| \(N_p\) | \(N_{SPT}\) na cota de apoio da ponta |
| \(N_L\) | \(N_{SPT}\) médio na camada de espessura \(\Delta L\) |
Os fatores de correção¶
\(F_1\) e \(F_2\) cobrem o efeito de escala — a diferença entre a estaca (protótipo) e o cone do CPT (modelo) — e a influência do método executivo.
Como \(F_1 > 1{,}0\), a resistência de ponta da estaca resulta inferior à do cone: é o efeito escala invertido, e ele é comprovado experimentalmente.
\(F_2\) deveria valer o mesmo que \(F_1\), mas engloba também uma correção de leitura: no cone mecânico, a parte inferior da luva de Begemann gera uma resistência de ponta capaz de dobrar o valor lido de atrito. Daí \(F_1 \le F_2 \le 2F_1\), e os autores adotaram a hipótese mais conservadora:
Se os dados vierem de cone elétrico
No cone elétrico e no piezocone a leitura é feita na ponteira, sem esse erro. Usando o método com dados de CPT em vez de SPT, deve-se adotar \(F_2 = F_1\).
Décourt-Quaresma (1978)¶
Formulação¶
Note que \(R_L\) não é um somatório: uma única tensão de atrito multiplica o perímetro e o comprimento inteiro do fuste.
A tensão de atrito¶
Décourt (1982) transformou a tabela original dos autores nesta expressão:
onde \(N_L\) é o \(N_{SPT}\) médio ao longo do fuste, sem nenhuma distinção quanto ao tipo de solo.
Três regras sobre a média do fuste
- Limite inferior \(N_L \ge 3\) e limite superior \(N_L \le 15\).
- Décourt (1982) estende o teto para \(N_L = 50\) em estacas de deslocamento e escavadas com bentonita, mantendo \(N_L \le 15\) para estacas Strauss e tubulões a céu aberto.
- Os valores de \(N\) usados na avaliação da resistência de ponta não entram na média do fuste.
A resistência de ponta¶
\(N_p\) é a média de três valores: o correspondente ao nível da ponta, o imediatamente anterior e o imediatamente posterior. O coeficiente \(C\) depende do solo — tabela —, ajustado com 41 provas de carga em estacas pré-moldadas de concreto.
Os fatores de Décourt (1996)¶
Eles estendem o método a estacas escavadas — com lama bentonítica ou em geral, inclusive tubulões a céu aberto —, hélice contínua, raiz e injetadas sob altas pressões. Os valores estão nas tabelas.
O método original permanece para três tipos
Para estacas pré-moldadas, metálicas e Franki, vale \(\alpha = \beta = 1\) — ou seja, o método de 1978 sem correção.
Critério de carga admissível¶
Décourt propõe fatores parciais, e é o que o SPX aplica:
A ponta leva 4 e o fuste 1,3 porque a confiabilidade das duas parcelas é diferente: o atrito se mobiliza com deslocamentos milimétricos, enquanto a ponta exige recalques da ordem de 10 % do diâmetro para se desenvolver plenamente — na carga de trabalho, ela ainda não está lá.
Para estaca escavada em compressão entra o limite adicional \(P_a \le 1{,}25\,R_L\), e o programa adota o menor. Em tração, a ponta é integralmente descartada: \(P_a = R_L/1{,}3\).
Teixeira (1996)¶
Formulação¶
Uma equação unificada, com dois parâmetros que multiplicam o \(N_{SPT}\) diretamente:
Aqui \(\alpha\) e \(\beta\) já estão em kPa — não são adimensionais como os de Décourt, apesar do mesmo nome.
| Símbolo | Significado |
|---|---|
| \(N_p\) | \(N_{SPT}\) médio no intervalo de 4 diâmetros acima da ponta a 1 diâmetro abaixo |
| \(N_L\) | \(N_{SPT}\) médio ao longo do fuste |
| \(\alpha\) | Função do solo e do tipo de estaca — tabela |
| \(\beta\) | Função apenas do tipo de estaca — idem |
A janela \([-4D, +D]\) é a definição mais fisicamente fundamentada das três: o bulbo de tensões da ponta tem extensão proporcional ao diâmetro. Em consequência, o mesmo perfil dá pontas diferentes para diâmetros diferentes — o que é correto, e costuma surpreender quem compara com os outros métodos.
Critério de carga admissível¶
O SPX aplica o critério geral da NBR 6122, \(P_a = R/2\), e para estacas escavadas adota também \(P_a = R_L/4 + R_p/1{,}5\), ficando com o menor dos dois.
Comparação¶
| Aoki-Velloso | Décourt-Quaresma | Teixeira | |
|---|---|---|---|
| Forma de \(R_L\) | Somatório por camada | Tensão única × \(U L\) | Tensão única × \(U L\) |
| \(N\) do fuste | Médio na camada | Médio no fuste, \(3 \le N_L \le 15\) | Médio no fuste |
| \(N\) da ponta | Na cota da ponta | Média de 3 valores | Média em \([-4D, +D]\) |
| Distingue o solo no fuste? | Sim, por \(\alpha K\) | Não | Não — β só depende da estaca |
| Depende do diâmetro? | Só em \(A_p\) e \(U\) | Só em \(A_p\) e \(U\) | Também em \(N_p\) |
| Unidade dos coeficientes | \(K\) em MPa, \(\alpha\) em % | \(C\) em kPa | \(\alpha, \beta\) em kPa |
Como ler a divergência
Os três não deveriam concordar, e concordância excessiva é mais suspeita que divergência.
- Perfil heterogêneo separa Aoki dos outros dois: só ele integra o atrito camada a camada, enquanto Décourt e Teixeira achatam o fuste numa média.
- Perfil com \(N\) alto no fuste separa Décourt: o teto da média (15 ou 50, conforme a estaca) trunca a contribuição lateral.
- Diâmetro grande separa Teixeira, pelo \(N_p\) em janela.
A prática defensável é adotar o menor dos três, ou o método com calibração regional conhecida, registrando a escolha na memória de cálculo.
Efeito de grupo¶
Tudo acima vale para o elemento isolado. A capacidade do grupo pode diferir da soma dos elementos, e isso se quantifica pela eficiência:
O entendimento atual, apoiado em ensaios em grupos, é que a eficiência é geralmente igual ou superior à unidade:
| Situação | Eficiência |
|---|---|
| Estacas de qualquer tipo em argila | \(\approx 1\) |
| Estacas escavadas em qualquer solo | \(\approx 1\) |
| Estacas cravadas em areia, sobretudo fofa | > 1 — até 1,5 ou 1,7 |
O SPX não aplica ganho de grupo
Não há teoria ou fórmula apropriada para estimar a eficiência, e a prática corrente de projeto não leva em conta possíveis benefícios — o que é a postura conservadora. O programa segue essa prática: dimensiona por elemento isolado.
Limites de validade¶
Faixa de aplicação
- Os três são semiempíricos, calibrados contra provas de carga em um universo limitado. Aoki-Velloso ajustou \(F_1\) e \(F_2\) com 63 provas; Décourt-Quaresma ajustou \(C\) com 41, em pré-moldadas de concreto.
- Teixeira vale para \(4 < N_{SPT} < 40\) — é a faixa declarada da tabela de \(\alpha\). Fora dela, extrapola.
- Teixeira não se aplica a estacas pré-moldadas de concreto flutuantes em espessas camadas de argila mole sensível, com \(N_{SPT} < 3\). Nesse caso o autor tabela \(r_L\) diretamente pela natureza do sedimento — 20 a 30 kPa em argila fluviolagunar, 60 a 80 kPa em argila transicional.
- Só valem com \(N_{SPT}\) de sondagem à percussão conforme a NBR 6484.
- Não cobrem solos colapsíveis, expansivos, orgânicos moles, rochas alteradas nem matacões.
- Não consideram atrito negativo, que precisa ser somado à parte quando houver aterro recente ou rebaixamento de lençol.
- As correlações originais são abrangentes, não regionais. A tendência recomendada é manter a formulação e substituir \(K\) e \(\alpha\) por correlações locais de validade comprovada — como as de Alonso (1980) para São Paulo e as de Danziger & Velloso (1986) para o Rio de Janeiro.
- A NBR 6122 exige prova de carga acima de certos números de estacas. Nenhum método semiempírico a dispensa.
Resultado apresentado¶
A tabela de cada método traz, por cota:
| Coluna | Conteúdo |
|---|---|
| Cotas (m) | Profundidade da ponta, negativa |
| \(R_L\) (kN) | Resistência lateral até aquela cota |
| \(R_p\) (kN) | Resistência de ponta naquela cota |
| \(R_t\) (kN) | Soma das duas |
| \(P_a\) Final (kN) | Carga admissível, já com os fatores e limites cabíveis |
Para estacas escavadas em compressão, Décourt-Quaresma acrescenta as colunas
Pa escavada e Pa Dec-Qua, mostrando o limite e o valor sem limite lado a
lado — para que se veja qual critério governou.