Método das Bielas e Tirantes (MBT)¶
O modelo de Santos, Marquesi & Stucchi (2015), publicado nos Comentários Técnicos e Exemplos de Aplicação da ABNT NBR 6118:2014 do IBRACON.
Ele nasceu de uma necessidade concreta: a revisão da NBR 6118 em 2014 introduziu limites de resistência de nós e bielas que não existiam antes, e esses limites são inferiores aos do método de Blévot. Um bloco que passava por Blévot podia não passar pela norma — e faltava um método que conciliasse as duas coisas sem o conservadorismo excessivo do método de Fusco.
O MBT mistura o modelo clássico de Blévot com o conceito de abertura de carga de Fusco.
O problema do espraiamento¶
Em Blévot, a projeção vertical da biela é a altura útil \(d\), e a dimensão do pilar entra por um termo tabelado.
O MBT olha para o nó sob o pilar. A carga não entra no bloco pela área exata do pilar: ela se espraia ao penetrar no concreto, a 45°, e a área efetiva de compressão cresce com a profundidade. A biela nasce no ponto em que a tensão nessa área ampliada cai até o limite resistente.
Chamando de \(y\) essa profundidade, a área ampliada é
e o braço de alavanca interno passa a ser
A diferença de geometria em uma frase
Blévot define a tangente do ângulo pela razão \(d/L_{proj}\); o MBT a define por \(z/L_{proj}\), com \(z = d - 0{,}5y\).
Como \(z < d\), a biela do MBT é mais abatida que a de Blévot — e tirante mais carregado, portanto mais armadura.
A largura da biela na região do nó sai de
Os dois limites nodais, e eles são diferentes¶
Aqui está o ponto que mais se erra. A NBR 6118 (item 22.3.2) define limites distintos conforme o tipo de nó:
com
| Nó | Tipo | Forças que nele atuam | Limite |
|---|---|---|---|
| Sob o pilar | CCC | Só compressão | \(f_{cd1} = 0{,}85\,\alpha_{v2}f_{cd}\) |
| Sobre a estaca | CCT | Duas compressões e uma tração | \(f_{cd3} = 0{,}72\,\alpha_{v2}f_{cd}\) |
O nó da estaca admite 15 % menos tensão
É o tirante que faz a diferença: o nó sobre a estaca ancora a armadura tracionada, e a tração fissura o concreto na região nodal, reduzindo a tensão de compressão que ele suporta.
Usar \(f_{cd1}\) nos dois nós — o erro fácil — superestima em 18 % a capacidade do nó da estaca. Num bloco em que a estaca governa, é a diferença entre aprovar e reprovar.
A resistência do nó sob o pilar é adotada, a favor da segurança, como o valor do item 22.1 da NBR 6118 para o nó CCC, independentemente da quantidade de estacas.
O roteiro iterativo¶
Como a tensão depende de \(\text{sen}^2\theta\), e \(\theta\) depende de \(y\), não há solução fechada. O procedimento é:
- Adota-se um \(y\) — por exemplo, \(y = 0{,}2d\).
- Determina-se a inclinação da biela, sendo desejável \(\theta \ge 45^\circ\).
- Verifica-se a tensão de compressão no nó sob o pilar.
- Se ela não for igual ao limite de resistência, itera-se \(y\) até que a tensão solicitante iguale a resistente.
- Determina-se a inclinação final da biela e as armaduras principais sobre as estacas.
- Verificam-se as tensões de compressão nos nós sobre as estacas.
- Determinam-se as armaduras de distribuição, de pele e as demais secundárias.
O PCO automatiza os passos 1 a 4: ele procura diretamente o \(y\) em que a tensão no nó do pilar iguala \(f_{cd1}\).
Três restrições do método¶
- O espraiamento é sempre a 45°. O método não admite outra inclinação, e o programa não permite alterá-la.
- Em blocos sobre duas estacas, o espraiamento ocorre apenas no sentido longitudinal do bloco.
- A biela parte do centro da quadrícula do pilar original, à altura \(y/2\).
O limite de y¶
O espraiamento não cresce indefinidamente: está confinado pelas dimensões do bloco.
Por que não 0,4d
Aparece na literatura um limite \(y \le 0{,}4d\), frequentemente citado como se fosse do MBT. Não é: vem de outra formulação.
O que o MBT recomenda é controlar a profundidade da linha neutra, de modo análogo ao que se faz em flexão para garantir capacidade de deformação plástica. O critério indicado nos estudos preliminares é
A hipótese do método é que o ELU é alcançado quando a resistência do nó superior e a força resistente da armadura se esgotam ao mesmo tempo — e isso só é adequado se o nó inferior sobre a estaca, ou a biela, não esgotarem antes as suas resistências.
Blévot ou MBT?¶
| Blévot & Frémy | MBT | |
|---|---|---|
| Tangente do ângulo | \(d / L_{proj}\) | \(z / L_{proj}\), com \(z = d - 0{,}5y\) |
| Dimensão do pilar | Quadrícula \(a_p/4\) | Área ampliada por espraiamento a 45° |
| Limite no nó do pilar | \(\alpha_{lim} K_R f_{cd}\) — 1,4 a 2,1 conforme o nº de estacas | \(f_{cd1} = 0{,}85\,\alpha_{v2}f_{cd}\) |
| Limite no nó da estaca | O mesmo | \(f_{cd3} = 0{,}72\,\alpha_{v2}f_{cd}\) |
| Armadura | Menor; com majoração de 15 % em blocos de 2 estacas | Maior, em geral |
| Respaldo | 116 ensaios próprios | Comentários do IBRACON à NBR 6118 |
Como escolher
O MBT é o modelo alinhado aos Comentários do IBRACON à norma vigente, e embute a verificação do nó no próprio cálculo do braço de alavanca. Se você precisa justificar o dimensionamento contra a NBR 6118 atual, é o caminho direto.
Blévot continua útil como referência e conferência de ordem de grandeza — é o método com que a maior parte do acervo construído foi dimensionada.
O MBT produz mais armadura que Blévot na maioria dos casos. A exceção pode ocorrer justamente em blocos sobre duas estacas, por causa do fator 1,15 que Blévot aplica ali.
Comparação com ensaios¶
A razão entre a carga de ruptura medida e a prevista, no conjunto de ensaios analisados por Santos et al.:
| Método | Média | Coef. de variação |
|---|---|---|
| Blévot | 1,19 | 0,21 |
| MBT (Santos et al.) | 1,21 a 1,23 | 0,19 a 0,20 |
| Fusco | 1,49 | 0,17 |
O MBT tem nível de segurança equivalente ao de Blévot, com dispersão ligeiramente menor. Fusco é bem mais conservador, por causa do limite de tensão vertical na região da estaca.
Limites de validade¶
Faixa de aplicação
- Vale para bloco rígido, como Blévot.
- A busca de \(y\) satura no limite geométrico. Quando satura sem que a tensão caia ao limite, o bloco não tem geometria para a carga: o caminho é aumentar a altura, a seção do pilar ou o \(f_{ck}\) — não a armadura.
- O espraiamento a 45° é uma idealização. O campo de tensões real é curvo, e é o que o modelo em elementos finitos permite conferir.
- Os limites de nós e bielas da NBR 6118 foram estabelecidos para elementos planos e não consideram o confinamento que existe num bloco tridimensional. Por isso são conservadores aqui — Blévot observou bielas rompendo com tensão superior a 150 % da resistência média do concreto, efeito do confinamento gerado pelo detalhamento em gaiola.
- A partir dessa observação, Santos et al. propõem eliminar o fator \(\alpha_{v2}\) na verificação do nó superior para blocos com quatro ou mais estacas. O PCO não adota essa proposta: mantém \(\alpha_{v2}\), que é o texto normativo.